Paredes sujas e ensebadas. Cuspidas. A umidade dissolve o reboco e o mofo avança lentamente. O local é abafado, mal iluminado e tem o cheiro putrefo do relaxo e do abandono. A poeira e a imundície vão se amontoando uma sobre a outra. Este cenário lúgubre e sinistro, bem poderia servir de locações para as filmagens, versão tupiniquim, de " O Exorcista". Também pode servir como refúgio de foragidos da justiça ou como boca-de-fumo. Na melhor das análises, hospício. O achincalhe não para por aí: colchões velhos e infestados de ácaros, madeira apodrecida, móveis, armários e panelas que foram recolhidos do lixo, pintura descascada, teias de aranha, baratas, cupins, fiação em péssimo estado, gambiarras diversas. Para o responsável pela espelunca, é obra do divino. Tudo é cuidadosamente ajeitadinho nos mínimos detalhes para que fique o mais parecido possível com uma choça de mendigos. Assim, sentem-se no céu. Mentalidade tacanha, parece gostar da desolação e da decadência. Não há uma nódoa que não seja a vontade do seu deus, deve pensar. Provavelmente, acostumado a viver em chiqueiros, já não lhe espanta mais a podridão. Afeiçoou-se pelo sebo, germes e bactérias. Das verbas para manutenção da casa, nada se vê. Preocupadíssimo com as obras sociais promovidas pela sua congregação, doa fielmente cada centavo arrecadado para que o "bispo" deposite milhões de dólares em paraísos fiscais. Aos clientes, espremidos num buraco resta o consolo da oração e do jejum. Que ludibrio !
Trinta e cinco pessoas onde cabem apenas quinze. Espaço exíguo, beliches no corredor, falta de extintores, trapos como lençóis, instalações sanitárias lamentáveis, cama debaixo da escada e falta de limpeza adequada são outros aspectos agravantes que violam o bom senso. Para o simplório, humilde e chucro, isto é uma benção dos céus. Para garantir tanta prosperidade asperge óleo santificado por cima da crosta de imundícia.
Se já não bastasse a administração manca, uma corriola da fé está sempre disposta a perturbar o sono daqueles que pagam apenas para dormir. Quem trabalha realmente merece descanso. Contudo, a prioridade é a baderna. Matracas ungidas e apaniguados revesam-se no falatório. Mestres e sábios sob a inspiração do espírito de porco conspiram contra a paz e a tranquilidade. Gralhas se esforçam para ver quem melhor inferniza com a conversa de peão besta. É a pregação da malandragem. Em vez do tão prometido sossego, ouve-se um dilúvio de asnices. Ministério dos alienados. Desafinam cântigos e louvores. Assobiam antes do raiar do sol. Quando a goela ardente resseca, ligam o rádio. Hora do Gospel. Em alguns, parece haver uma necessidade biológica de falar sem parar. Silêncio absoluto mesmo, só quando tramam ao pé de ouvido. Ele mesmo, sabichão, tranca-se na quietude do seu quarto, desliga o telefone e que se exploda o mundo lá fora. Neste ponto, as regras da "casa" são bem claras: foda-se pr'a quem dorme !
Covil de mexeriqueiros. Gente à-toa. Grosseira. Da mesma laia. A maioria possue uma característica em comum e peculiar: o olho gordo. A língua comprida vai denunciando os cabras-safados. Tantas cabeças grandes, porém, pouco cérebro. Baixo nível de instrução. Elevada mediocridade. Fugiram da escola tal qual o diabo fugiu da cruz. Ora ou outra, alguém vomita pelos cantos. Cospe-se mais um pouco no chão. Semelhantes se atraem. Em alguns casos, farejam-se. Idosos caquéticos, plaqueiros desdentados, catadores de latinha, marreteiros de um real, aposentados por psicopatias diversas, resíduos de albergues, moradores de viadutos, enjeitados e fofoqueiros de plantão compõem parte da clientela. Entreposto de retirantes derrotados. Sabemos o quanto contribuem para qualquer cidade levas de migração ordinária. Tento imaginar que tipo de criatura consegue encontrar motivos para rir num pardieiro desses!
A ganância é tanta que aceita a entrada, vez ou outra, de bêbados, viciados e paranoicos movidos a remédios de venda controlada. Basta apenas que o interessado se apresente com o bíblia debaixo do braço ou travestido num terno de brechó. A senha é: eu tive a visão de um anjo. Se cupincha, tem o direito a televisor. Os demais que se contentem com um radinho de pilha e só. Bom mesmo é hospedar maconheiro para que este queime sua erva publicamente e na frente das crianças. Caso tenha dificuldade para se livrar do endemoniado, apela para o uso arbitrário das próprias razões: sai em busca de asseclas pela rua. Numa ocasião, como quem salta do álbum de fotografias de marginais fichados na polícia, um jagunço de merda surge, prestativo. O mau-elemento com feições de ladrão tinha em mente um único objetivo: segurar no pinto do inquilino abusado. Teve início a enésima baixaria. Seguiu-se uma breve luta corporal. Xingam-se. Engalfinham-se. Rinha de jegues. Machão versus machão, ficaram ali, alguns instantes, agarradinhos num namorico contrangedor. Corpos ardentes unidos num idílio. Valentões. Que viadagem, oxente !
Ignorância é contagiosa. Um mísero vazamento torna-se um problema intransponível. Doutra feita, deixou, despreocupadamente, verter para o ralo mil litros d'água de acordo com a medição. Sabedoria de um asno, uma bóia d'água desregulada só pode ser coisa do malígno. Num momento em que se intensifica um campanha mundial contra o desperdício de água potável, não consegue ver qualquer diferença entre hum ou um milhão de metros cúbicos. Talvez tenha saudades dos tempos em que bebia água de um açude barrento. Indigência ocupacional, não encontrando nada o que fazer, avoa para ali para acolá, como uma mosca varejeira. Empaca diante de um montículo de pó. Entreolham-se. Cumprimentam-se. São velhos amigos. Desvia-se. Num raro surto de higidez mental, põe-se a varrer. Apossasse-se da vassoura como um rei. Cutuca aqui, cutuca ali. Há muito capricho no que faz. Faxineiro e lixo não se entendem. Há grande exortação naquele instante: sai, capeta, sai, capeta! Um bolor bípede atravessa o caminho. Outro estorvo pede licença. Desiste. Esforça-se no ofício em vão. Recolhe com a pá um punhadinho de miséria. Besunta um pouco mais com óleo consagrado aquilo que escapou. Outra trucagem é jogar massa de cimento por cima mal-feito e do mal-acabado dando a falsa impressão de que uma grande reforma está em andamento. Enquanto isso, cupins incansáveis, silenciosamente, transformam em farelo o que resta do incalculável patrimônio.
Para mostrar o quanto pode ser sórdido, leviano e sorrateiro, não hesitaria em acionar a "gloriosa" polícia militar injustificadamente para um cliente. Contaria uma versão inverossímel e fantasiosa dos fatos só para quebrar a cara logo em seguida na delegacia. Ou então, parte para o despejo convencional: Mancumuna-se com outros covardes iguais e ele e partem para a quadrilhagem do quatro contra um. Juro que ficaram parecidos com nordestinos pilantras. Cristãos como esse, o inferno já está lotado.
Num claro desrespeito à lei, o guardião do cortiço não fornece recibos de pagamento e fumantes são orientados a fazer uso de área fechada. É fácil concluir que diante dos fatos que não há qualquer interesse no bem-estar dos ocupantes.
O achincalhe não para por aqui. O golpe de misericóridia na paz acontece quando criaturas de finíssima linhagem resolvem colocar o som em alto volume bem na porta varando a madrugada. Forró-do-corno. Ouve-se o baque de cascos no chão. Dá para sentir o cheiro de estrume por todo lado. Associação "Boca de Litro". Boçais. A estes, juntam-se mocréias diversas. E bota mocréia nisso ! Espécime periguete selvagem. Na estupidez, machos e fêmeas se confudem. Uma favelagem ! Vicente agradece.
O jejum, a fogueira santa, a corrente dos 300 pastores e o mar de sal são apenas parte do esforço para que alcance o seu intento: montar uma favela no coração de São Paulo.
Um negócio ajambrado, ilegal e irregular. Tosco. Gato por lebre. Sem dignidade. Mais de 1700 antros identificados que funcionam na clandestinidade e em desacordo com a legislação. Viveiro de incivilizados. Curioso observar que, dependendo do planeta de origem, fuça de um é focinho de outro. Causa estranheza que uma bosta dessas não esteja interditada pela Prefeitura. Pendura uma placa vendendo um serviço que é uma lástima. Se pudesse, construiria puxadinhos a perder de vista. Fosse proprietário de um restaurante, fico a imaginar quanta buchada estragada e quanta farofa azeda não seria servida aos clientes. É muita glória, competência... nenhuma. Aqui não é Terra-de-Ninguém. São Paulo tem lei, cidadão. É muita cara de pau ! Aleluia de cu é rola!
A LIBERDADE DE IR E VIR PRECEITUADA EM CONSTITUIÇÃO NÃO SIGNIFICA ENXOVALHAR A CIDADE DOS OUTROS.
INÉRCIA FISCALIZATÓRIA
PROCESSO ADMINISTRATIVO NR. 2010- 0.212.243-7
Em 22 / 02 / 2010 foi protocolada a denúncia junto a Sub-Prefeitura da Sé. Supondo que levem tão pouco tempo para programarem uma visita, é provável que terminem o serviço daqui a 400 anos. Talvez não seja prioritário. Acredita-se que o foco esteja onde se possa abocanhar um bom dinheiro extra. Não são poucos os casos de fiscais desidiosos, desinteressados e relapsos. Negligentes. A intimação ao infrator limita-se a uma conversa amigável e uma multa simbólica. Finalizada a fase preambular do auto de vistoria, passa-se o problema à alçada de um "engenheiro". O processo administrativo adormece ora prateleira, ora numa gaveta. Esquecido num armário trancado. Mais 400 anos de espera. Atolados de má-vontade. Qualquer projeto de revitalização do centro fica comprometido desse jeito. É muita palhaçada ! Chamar essa turminha de "máfia", é desmoralizar a Camorra e a Yakusa. No máximo que são, apenas, trapalhões.
CAMPANHA CIDADE LIMPA.